quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Estreia

Até agora eram apenas os textos da coluna radiofónica arquivados num blog. Agora, além desses textos, abri um blog pessoal: http://pedroroloduarte.blogs.sapo.pt. Os textos da rádio podem encontrá-los a partir do link Janela Indiscreta que está no blog. Obrigado.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Migração & estreia

Terceiro aviso: a partir da próxima quinta-feira, dia 15, o blog e os seus textos "migram" para a plataforma Sapo. Novo endereço: http://prdantenaum.blogs.sapo.pt. Nesse mesmo dia entra no ar o meu (outro) blog, pessoal e com caracteristicas próprias. Endereço disponibilizado em breve...

Aqui d'El Rei

Um rei manda calar um Presidente e a coisa ferve – ou melhor, ganha pano para mangas para comentários e opiniões. É o que está a dar na blogoesfera depois de Juan Carlos ter gritado um sonoro “cala-te” ao Presidente da Venezuela que tentava insultar Aznar, ex-primeiro de Espanha...
Vejamos a blogoesfera então:
“Como um Alberto João Jardim, Chavez não respeita os opositores, é um palhaço, quer eternizar-se no poder e tem todos os tiques autoritários que nos devem pôr alerta. Mas, tal como Jardim, não é um ditador. Como George W. Bush, pisa, sempre que pode, as regras do Estado de Direito. Como George W. Bush, não é um ditador. Como quase todos os presidentes latino-americanos, Chavez é um populista”. Daniel Oliveira, no blog Arrastão, resume assim o essencial do que a esquerda pensa sobre o tema.
Rodrigo Adão da Fonseca, no blog da revista Atlântico, responde-lhe;
Já não há paciência para os “mas” do Daniel Oliveira. Censure ou apoie Chavez, agora, já não há tacho para esta sistemática mistura de tudo com todos, como se a realidade e a análise política fossem uma espécie de salada de frutas. É que não se percebe porque, para falar em Chavez, é preciso viajar até à Madeira, ou trazer à colação Bush”.
Inez Dentinho, no blog Geração de 60, muda o sentido dos factos e avança:
“A simples indignação do Rei de Espanha perante a ofensa de Hugo Chavez (...) arrumou, em dois segundos, a bravata do ditador (...).Está aqui tudo: a revolta genuína, a representação institucional do País, o decalque dos sentimentos do Povo; a liderança espanhola no espaço Latino-americano; a liberdade de expressão do filho do Conde de Barcelona (...). Numa palavra: a superioridade das monarquias constitucionais nas democracias ocidentais”.
Sofia Loureiro dos Santos, no blog Defender o quadrado, tem argumentos diferentes para defender Juan Carlos:
“Sou republicana e a ideia de monarquia é, para mim, um anacronismo. Mas dizer que Juan Carlos deveria ter estado calado porque não tem a legitimidade do voto espanhol é totalmente descabido. Tem a legitimidade que lhe vem de uma constituição sufragada democraticamente, já para não falar do facto de ter sido um elemento importantíssimo na construção da democracia espanhola”.
JSM, no blog Fora de Estrutura, enfrenta o tema por um lado histórico e escreve:
“Existem mil razões para a razão do monarca, muito para além daquelas que suscitaram a aplaudida intervenção. Em primeiro lugar porque a Venezuela só existe através da Espanha, tal como o petróleo e o desenvolvimento, a escravatura ou a liberdade. E Chavez é ele próprio um produto de todas aquelas contradições”.
Carlos Furtado, no blog Nortadas, elogia o rei de Espanha: “Sempre mostrou coragem e tem sido uma peça fundamental na união das Espanhas. Hoje mostrou que está em grande forma”. Fecho com José Teófilo Duarte que me pareceu sensato no Blog Operatório quando afirma que “Chavez tem um discurso de rua que agrada ao chamado homem da rua. A atitude do rei de Espanha situa-se no mesmo registo. O sucesso inesperado da sua reacção deve-se ao insólito: não se imagina um rei a descer à rua. Os tempos estão a mudar”.
Estão mesmo, e este painel de opiniões que juntei sobre o mesmo assunto mostra bem que, em tempos que mudam, há opiniões para todos os gostos. Assim se deixem as Janelas bem abertas ao debate...

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Migração & estreia

Segundo aviso: a partir da próxima quinta-feira, dia 15, o blog e os seus textos "migram" para a plataforma Sapo. Novo endereço: http://prdantenaum.blogs.sapo.pt. Nesse mesmo dia entra no ar o meu (outro) blog, pessoal e com caracteristicas próprias. Endereço disponibilizado em breve...

Na morte de Armando Rafael

A blogoesfera segue um princípio clássico do jornalismo: a proximidade – melhor dito, o círculo de proximidades - determina a relevância do que é tema de conversa. É interessante porque os blogs criticam muito os critérios de escolha dos meios de comunicação clássicos – mas na hora da verdade, reagem da mesmíssima maneira... São humanos, digo eu.
Não admira, por isso, que num período cheio de acontecimentos no universo, por exemplo, internacional, acabe por ser a morte de um jornalista português a mobilizar muitos, mesmo muitos bloggers.
Armando Rafael, até há meses jornalista do DN, chefe de gabinete de António Costa na Câmara Municipal de Lisboa, era um bom jornalista mas também, e sobretudo, um homem bom. Tinha apenas 44 anos. Morreu subitamente, a trabalhar. Sem aviso prévio. Cedo demais.
O facto chocou os colegas, os amigos. Mário Bettencourt-Resendes, por exemplo, voltou ao blog Bicho Carpinteiro:
“Depois de uma longa ausência, regresso pelos piores motivos: morreu um amigo. O Armando Rafael merecia que a vida lhe tivesse dado tempo para que chegasse onde merecia e tinha talento para estar. Era culto, sabia que o mundo não acaba nas nossas fronteiras, tinha um enorme sentido de humor, gostava das coisas boas que a vida tem. Frontal, mas sempre solidário; espírito independente, lealdade irrepreensível, ao lado dos amigos nas horas difíceis”.
Pedro Correia, também um jornalista do DN, no Corta Fitas: “Como muito bem escreveu o Duarte Calvão, todas as mortes são estúpidas, mas algumas são tão estúpidas que nos deixam completamente atordoados.”
Francisco José Viegas, Origem das Espécies: “Fico sem nada para dizer. Rigorosamente nada. Desprotegido. Com a sensação de que estamos todos reduzidos ao silêncio. Mas sobretudo desprotegido. Sem nenhuma explicação”
Miguel Laranjeiro, no blog Geração Sol: “No jornalismo, a preocupação com o rigor que punha em tudo o que fazia, era exemplo para os colegas mais novos. A capacidade de agregar equipas e criar um ambiente de trabalho gratificante era uma arte que desempenhava como poucos.”
Alexandre Brandão da Veiga, no blog Geração de 60, tem um texto notável, apesar de parecer frio e mesmo cruel: conta histórias da sua relação com Armando Rafael e publica uma frase extraordinária: “Era de uma total inconsistência intelectual e um poço de lugares comuns, pelo que não me espantei que tivesse ido para o jornalismo e seguisse a sua veia política.” Parece que Armando chamava a Alexandre “aristocrata reaccionário” – e tinha toda a razão do mundo. Quem será este Brandão da Veiga? Não sei...
Sofia Galvão, num comentário a este post do blog Geração de 60, escreve sobre Armando Rafael: “Era um homem de causas e de intervenção. As suas opções eram claras e conhecidas. Mas nunca foi sectário, nunca se fechou aos outros e ao que era diverso. Testemunho-o, sem hesitação, e com a autoridade de quem não navegou nas suas águas”.
Enfim, mais à esquerda, mais à direita, a morte de Armando Rafael deixou a blogoesfera – porventura a mais militante, mais ligada ao jornalismo e à política -, triste e atordoada. Não é para menos. O que entretanto mudou no mundo é essa possibilidade real de podermos partilhar com os outros, em tempo útil, a dor, a tristeza, o sentimento profundo. Partilho-o com quem ficou assim, sem jeito, no fim-de-semana que passou. “Desprotegido”, também eu.

Migração & estreia

Primeiro aviso: a partir da próxima quinta-feira, dia 15, o blog e os seus textos "migram" para a plataforma Sapo. Novo endereço: http://prdantenaum.blogs.sapo.pt. Nesse mesmo dia entra no ar o meu (outro) blog, pessoal e com caracteristicas próprias. Endereço disponibilizado em breve...

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Blog da Semana: Bussola

“Os lisboetas não são necessariamente, e por regra, menos inteligentes do que nós” – este era o titulo de um dos primeiros posts, a 23 de Outubro de 2007... A coisa prometia, portanto. E promete. O novíssimo blogue Bússola merece obviamente constituir destaque da semana porque começa assim, a vir de Norte para Sul, sem medos, e com textos onde se escreve: “Sobe-me a mostarda ao nariz sempre que um lisboeta acha de bom gosto cumprimentar-me usando uma canhota tentativa de imitar o nosso sotaque: «Atão, murcóm?!. Cumu bai o Puaaaartu?». Imbuído de um espírito cristão, contenho-me e absolvo a idiotice do infeliz, que na sua santa e doce ignorância está convencido que não tem sotaque e a sua amaricada maneira de falar é o cânone. Nessas alturas, respiro fundo, e repito mentalmente, as vezes que se revelar necessário, o maior dos ensinamentos biblícos: «Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles será o Reino dos Céus/Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles será o Reino dos Céus!»». Quando a minha tensão arterial regressa à normalidade, concentro os meus esforços em evitar que a condescendência que me vai na alma se reflicta no sorriso que componho.”
Teme-se o pior neste texto de Jorge Fiel? Teme-se, claro. Ao seu lado estão nomes como Manuel Serrão, Julio Magalhães, Rogério Gomes e Manuel Queiroz, entre outros, e obviamente que o Norte comanda esta bússola que anima agora a blogoesfera.”Neste dealbar do século XXI, há alfacinhas em demasia a pensarem que Lisboa é o Sol à volta da qual gira o resto do país. O que é, convenhamos, pouco inteligente”, acrescenta Jorge Fiel nesse texto quase estatutário do novo blog. Texto que, diga-se, remata assim, citandoAlmeida Garrett: «Se na nossa cidade há muito quem troque o b pelo v, há muito pouco quem troque a liberdade pela servidão».
Eis então um blog com pronuncia do Norte, com gente do Norte, com uma bússola apontada sempre ao mesmo ponto cardeal. E com humor, critica, picardia e ironia em doses generosas, ao lado de ideias e reflexões e temas de debate.
A Janela Indiscreta é alfacinha mas não é fundamentalista – por isso à Janela, esta semana, está o novo blog de “Bussolistas, Nortistas e por isso verdadeiramente elitistas”, como escreve Manuel Serrão num post em que arrasa o filme Corrupção e o apelida de... benfiquista. Eu até sou do Benfica e não conto ver a fita, nem entrar nessas fitas. Mas entro com gosto na Bússola para reencontrar o Norte militante. Encontra-se em http://bussola.blogs.sapo.pt/. Volto na segunda-feira, com noticias de um mundo a norte, a sul, ou onde quer que a minha bússola vá parar...

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Se lá chegares...

A discussão do Orçamento de Estado merecia mais do que uma crónica – ou, como se costuma dizer, uma segunda opinião. No caso, uma colecção de segundas opiniões, e são tantas que o mais difícil mesmo é escolher. Mas... alguém tinha de o fazer!
Eduardo Pitta no blog Da Literatura, um post enxuto e certeiro:
“O início da discussão do Orçamento de Estado para 2008 corroborou várias evidências, a primeira e mais desinteressante das quais é que o Menino Guerreiro perde para o Animal Feroz. (...) Mas isso é circo. O pior é ouvir os outros. De Louçã a Portas, passando por Jerónimo, a vacuidade é de regra. Num debate que se presume técnico, a pirotecnia verbal, toda orientada no sentido do kickboxing, traduz falta de senso e vazio de alternativas. O governo agradece”.
Oiçamos agora José Medeiros Ferreiro, sempre poupado nas palavres no Bicho Carpinteiro:
“O inevitável aconteceu: José Sócrates levou a melhor no despique com Santana Lopes. Mas bom, bom, vai ser recordar como se discutia em 2007 o Orçamento em Portugal. No canal Memória...”
Carlos Abreu Amorim, no blog Blasfémias, prefere confrontar comentadores e eleitores. Assim:
“Os comentadores do costume decidiram (...): Santana foi arrasado! Donde, Sócrates esmagou. Já depois dos arautos terem lançado o mote para todos seguirem, Santana até disse que não esteve no seu melhor. Está, pois, decidido: Sócrates manda e mandará (...) ... Só há um ligeiro problema: o povo está-se nas tintas para esses diagnósticos nitidamente feitos antes do debate. Aqueles que se enganaram redondamente antes das Directas laranjas, dentro e fora do PSD, talvez devessem retomar o banho de humildade que tão cedo interromperam”.
Bruno Alves, no blog Desesperada Esperança, observa Santana Lopes e o que vê? Vê o seguinte: “Na sua cara, vê-se apenas o ressentimento, o orgulho ferido, e claro, a recordação de um falhanço estrondoso. Santana ia, mais uma vez, "surpreender" muita gente. O resultado foi, de novo, o descalabro”.
Bruno Cardoso Reis no blog Amigo do Povo, acha que há demagoaia a mais por aí e exclama:
“Durante anos um dos grandes escândalos nacionais era a fuga ao fisco. Os governos eram suspeitos de cumplicidade. Agora o grande escândalo é que a descida do deficit seja conseguido em parte pela maior eficiência fiscal!!! Realmente...”
E na recta final deste segundo olhar, um apontamento critico à Comunicação Social de Rui Costa Pinto no Mais Actual:
“O ambiente de futebolização do debate parlamentar sobre o Orçamento de Estado para 2008 revela o caos a que chegou uma certa Comunicação Social”.
Tem razão. Mas para um sorriso de final de dia, vou buscar Waldorf no Blog dos Marretas:
“Teixeira dos Santos prevê baixar impostos só em 2010. Ou seja, depois das próximas Legislativas”.
Titula o blog: “Se lá chegares como ministro...”

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Pólvora seca

O dia do duelo, o dia do debate, o dia do orçamento – como lhe queiram chamar. Ontem foi o dia em que José Sócrates foi abrir o debate sobre o Orçamento de Estado e ao mesmo tempo reencontrar o seu velho rival Pedro Santana Lopes. A blogoesfera esteve atenta, e começo por notar esta definição muito curiosa da Assembleia pela pena de João Gonçalves no Portugal dos Pequeninos:
“O Parlamento é uma espécie de condomínio fechado com os mesmos porteiros e seguranças há trinta e tal anos. Muda apenas o administrador. Agora é Sócrates. Há dois anos e meio que repete, com sucesso, a mesma lição”.
Ontem, no entanto, a lição tinha pela frente Santana Lopes. Chamaram àquilo um duelo mas Ana Rita Ferreira, no blog Margem Esquerda, fez bem a síntese:
“O Benfica-Sporting de hoje, que devia ter tido lugar no Parlamento, foi um flop. Mas só quem não conhecesse Santana Lopes podia esperar algo diferente... Como sempre, não fez o "trabalho de casa" e foi superficial. Com ele a dirigir o grupo parlamentar do PSD, Sócrates vai ganhar sempre por falta de comparência do adversário”.
Daniel Oliveira concorda, no Arrastão: “A notícia do renascimento de Santana foi manifestamente exagerada”, afirma, e acrescenta: “Santana não esteve mal. Esteve só igual a si próprio. Sócrates fez o que se esperava”.
Ainda à esquerda, Miguel Portas no blog Sem Muros:
“Dos dois lados, foi uma tristeza. Sem novidade, e reeditando mil debates onde os socialistas lançam as responsabilidades sobre quem já as teve e os sociais democratas sacodem a água do capote. Como comentou Francisco Louçã, “tinhamos a promessa de um duelo ao sol e está na altura de devolverem os bilhetes”…”
Miguel analisa depois em detalhe o Orçamento, vale a pena ler o longo texto que está no blog.
Mais à direita, José Pacheco Pereira no Abrupto recupera o programa Prós e Contras, onde se antecipou o debate do Orçamento, e exclama:
“O Prós e Contras revela involuntariamente uma verdade maior: há hoje menos oposição em Portugal do que há uns meses, no que verdadeiramente conta, no que dói ao PS e ao governo”. E recorda as propostas de entendimento entre PSD e PS deixadas no ar há dois dias por Luís Filipe Menezes.
Parece ser esse, afinal, o problema de fundo que marcou a apresentação do Orçamento: José Sócrates continua a governar sem oposição, ou apenas com um vago fogo-de-artifício à direita. Fogo-fátuo, como em geral a blogoesfera notou.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Sinistralidades

Uma infeliz sequência de acidentes de trânsito graves devolve à praça pública o debate sobre a sinistralidade, e as medidas que governos sucessivos têm tomado e que resultam, em geral, em mais multas e receitas para o Estado. No resto, como se vê, nada muda.
Procuro no blogoesfera reflexões sobre o tema e acabo por descobrir blogues que se dedicam, justamente, às causas e coisas do trânsito e da estrada.
“Menos um Carro”, por exemplo, assume-se como um “blog da Mobilidade Sustentável. Pelo ambiente, pelas cidades, pelas pessoas” – e é lá que percebo que a politica de pura caça à multa têm mesmo apoiantes:
“Tudo o que tem sido feito em termos de prevenção rodoviária (campanhas choque, tolerâncias zero, fiscalização mais apertada, penas mais elevadas (...), radares, etc...) tem valido a pena, invalidando assim as críticas de muita gente que gosta de pôr as culpas no mau estado das estradas e outros lugares-comuns semelhantes”.
Num sentido bem diferente descubro o blogue de Penim Redondo, Radares 50-80, onde está o apelo “Multados, irritados, fartos de arbitrariedades e cansados de engarrafamentos, UNI-VOS”.
Parece a brincar mas é a sério: o autor assume o politicamente menos correcto e olha os factos de outra forma:
“O lamentável acidente (...), junto ao Terreiro do Paço, (...) foi imediatamente aproveitado para uma campanha despudorada por parte dos fundamentalistas do costume. Sem cuidar de esclarecer as circunstâncias e causas do acidente, (...) partiu-se imediatamente para as acusações do costume aos automobilistas em geral, para a divulgação de números falaciosos e para a apresentação das soluções milagrosas.”
Menos habitual, mas muito certeira, é a reflexão que a jornalista Helena Matos deixa no blog Blasfémias:
“Os jornais de referência, escreve, têm um entendimento snob da vida. Assaltos e atropelamentos são coisas que não lhes interessam. A não ser que o assaltado seja um banco ou que o atropelamento aconteça no Terreiro do Paço. Infelizmente o que aconteceu este fim-de-semama no Terreiro do Paço está longe de ser um facto inédito. Inédito é causar indignação. E ser notícia destacada. Experimente-se colocar a palavra atropelamento no site do "Correio da Manhã" e descobrem-se inúmeros casos similares”.
Helena Matos exibe de seguida uma lista generosa de casos semelhantes que não foram notícia porque se passaram longe de Lisboa.
Já o acidente de ontem na A23 seria necessariamente notícia pela sua dimensão e não cabe nesta análise até por não ter ainda reflexos na blogoesfera.
No fim, acabo por parar e pensar neste testemunho de uma professora no blog “Da Planície”:
“Hoje, durante uma saída com os meus alunos, precisávamos de atravessar uma rua e eu fazia as recomendações habituais de irmos passar numa passadeira para peões, apesar de tornar o caminho mais longo. E diz-me logo um, que é o mais espevitado de todos "Oh professora, isso nem vale a pena porque o meu pai diz que os carros até gostam mais de passar por cima de quem vai nas passadeiras!". Fiquei de cara à banda”.
Não é caso para menos. Em escassos 5 dias, 3 acidentes reabrem o debate e deixam tudo em aberto: estado das ruas e estradas, politicas de prevenção, caça à multa. Tudo de novo em cima da mesa.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

As fitas que se fazem

Começo já por usar um blog para introduzir o tema do dia:
“O filme "Corrupção" cheira a esturro desde que se começou a falar dele. João Botelho aceitou a encomenda e gastou quilómetros de fita para fixar para a posteridade o manhoso livrito de uma tal Carolina” - assim escreve José Teófilo Duarte no Blog Operatório, e bem. O filme, que entretanto já não é de Botelho, a quem dá muito jeito ser e não ser ao mesmo tempo, estreou finalmente e já andam ideias e opiniões à solta na blogoesfera.
Começo a norte, com Manuel Queiroz no novo blog Bússola:
“Basicamente não há trama, o enredo é paupérrimo - ao nível do que já se sabia. O futebol não existe, não aparece um jogador - o que se tomaria por uma opção para que a "coisa" fosse sobre o país. Mas acaba por não ser nada”.
Luiz Carvalho, no blog Instante Fatal, gostou de “Corrupção”: ”é tecnicamente muito bom. Tem uma excelente fotografia que nos quer remeter para o ambiente dos filmes negros dos anos cinquenta”. (...) É um filme que se deixa ver”, remata o fotógrafo.
GK, no blog My Dirty Little Secret, é radical: “falso, mau, mal feito! Uma fantochada”.
Claro que no meio destas opiniões há sempre um sentimento que pode ser clubista, de Benfica versus Porto ou de Sul versus Norte.
Manuel Correia, no blog Puxa Palavra, prefere ir pela aparente polémica entre o realizador Botelho, rapaz de esquerda, e o produtor. Depois de dizer aqui d’el rei que não assino o filme, “realizador e produtor estão em negociações. Parece que tudo se resolverá no silêncio dos escritórios de advogados, mais cheque, menos cheque... A dignidade do trabalho não parece ter sido considerada...”
Pois é. São as pequenas falhas que ficam no ar neste argumento para este outro filme. E fecho a ronda com uma primeira impressão de um profissional: João Lopes, no blog Sound-vision:
“Corrupção é um filme sem destino, sem objectivo, sem identidade. Não sabemos se o filme de João Botelho seria "melhor" ou "pior". O certo é que, com o afastamento do realizador e o lançamento desta versão de produtor, o que resta é um amontoado desconexo e esburacado de cenas que apelam a qualquer coisa de inevitavelmente falso. Ou seja: pede-se ao espectador que construa na sua cabeça uma história "portuguesa" a partir de alusões que não chegam a sê-lo... No genérico de abertura, não há identificação de realizador ou argumentista; no final, diz-se mesmo que o filme alterou a "realidade" e até o próprio livro de Carolina Salgado. Quer isto dizer que a verdade material de Corrupção só se pode medir pelo facto de, através do seu nome, se venderem bilhetes de cinema”.
Vender, parece que vendem. No fim, o produtor, o realizador Botelho, a inspiradora Carolina, todos serão felizes para sempre. Como nos filmes...
PS - Por lapso, ao gravar o texto para a rádio, nesta citação final, em vez de João Lopes disse João Botelho... Um erro de que só me apercebi no podcast, tarde demais... Desculpas a ambos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Blog da semana: António Sousa Homem

Já esta semana deixei no ar a questão: até que ponto os leitores de cronistas de jornal não podem deixar de comprar a imprensa sabendo que podem ler os seus autores favoritos na blogoesfera e gratuitamente.
O meu blog da semana é um desses casos: é o blog de António Sousa Homem, cronista já de certa idade (nasceu em 1920), homem do Norte que vive em Modelo e é advogado de profissão.
Sousa Homem publica semanalmente na revista de sábado do Diário de Noticias e é um dos argumentos de venda mais sólidos da própria revista e do jornal ao sábado.
Diz-se que Sousa Homem não existe, que é pseudónimo de um conhecido escritor, mas para o caso isso não interessa nada: as crónicas da personagem são do melhor que se publica actualmente na imprensa portuguesa, e se a figura é inventada então é mesmo muito bem inventada.
Vantagem do blog: todas as crónicas do autor são ali publicadas no mesmo dia em que saem no jornal.
“A vida não acaba, escrevia Sousa Homem no sábado passado. O meu tio Alberto, bibliófilo de São Pedro de Arcos, considerava largamente que depois de um dia, outro dia havia de chegar. Com este princípio, que ele dizia ser arran­cado à inteligência do Minho, apontava o mundo de colinas, vales, ravinas enclausuradas, lagoas no sopé das serras – enfim, o mundo de São Pedro de Arcos, aquele a quem devo­tou a sua sensibilidade de poeta nunca publicado”.Num estilo literário muito agarrado às imagens do campo, às memórias e aos cheiros do passado, o cronista ainda assim reflecte sobre o país actual. Escreve por exemplo:
“Portugal vive empenhado em pagar direitos de autor a cavalheiros que escrevem uns livros vagamente parecidos com romances, e a senhoras que – se vivessem noutra época – resolveriam o problema com uma ida mais frequente ao confessionário (…) Diante do vastíssimo número de escritores de hoje em dia, o velho doutor Homem, meu pai, colocaria a hipótese de cha­mar pela polícia de costumes, uma velharia já no seu tempo. Mas a intenção fica. A vida não acaba, como filosoficamente considerava o tio Alberto, mas os escritores multiplicam-se bravamente. Por mim, leio cada vez mais devagar e tenho de escolher os livros da mesa-de-cabeceira”.Este era o remate da crónica do ultimo sábado, amanhã lá estará nova crónica de Sousa Homem, o autor que ninguém sabe se existe mas que, na verdade, é bem real na blogoesfera em antonio-sousa-homem.blogspot.com.
“Em certos aspectos”, como ele “diz”, parte do Diário de Noticias de sábado está ali, naquele livro virtual que todas as semana se constrói.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Domingo no rádio

No próximo domingo, dia 4 de Novembro, entre as 11:00 e as 12:00, na Antena 1 (www.rtp.pt), vou conversar com a Shaken e Lapis-Lázuli, ou melhor, a Sofia e a Raquel, duas das sete autoras do blog "Lésbicas: simples ou com gelo?" (http://lesbicasimples.blogspot.com).

Um só post

O Procurador-Geral da República foi ouvido ontem na Assembleia da República sobre a questão das escutas telefónicas, na sequência das declarações que deu ao semanário Sol onde afirmava achar que "as escutas em Portugal são feitas exageradamente" e confessou: "Eu próprio tenho muitas dúvidas que não tenha telefones sob escuta. Como é que vou lidar com isso? Não sei. Como vou controlar isto? Não sei. Penso que tenho um telemóvel sob escuta. Às vezes faz uns barulhos esquisitos".
Logo no dia seguinte, abri a Janela aos comentários da blogoesfera, que não se cansou de ironizar à volta dos barulhos esquisitos.
Deixei de fora, no entanto, o post mais relevante que li sobre a matéria, aquele que, escrito por alguém que está profundamente por dentro do meio da justiça, sabe do que fala e sabe como fala. Deixei de fora porque sabia que mais tarde ou mais cedo faria sentido trazê-lo à antena com calma e com disponibilidade para todos os ouvirmos. Seria agora, depois do PGR ir à Assembleia.
Porque vale mesmo a pena perceber os contornos do caso, aqui vai, então, na íntegra, o que sobre esta matéria escreveu Vieira do Mar no blog Controversa Maresia: “As polémicas declarações de Pinto Monteiro devem ser entendidas à luz de um pequeno pormenor de que muitos parecem estar a esquecer-se: o senhor é juiz de carreira, não é procurador. O que faz toda a diferença. Tradicionalmente, estas duas magistraturas opõe-se, chateiam-se mutuamente e não se gramam nem um bocadinho. Os juízes, não suportam ter procuradores à perna que lhes controlam a toda a hora a legalidade das decisões (…), nem lhes perdoam que, no final de um curso que é conjunto, aqueles tenham optado deliberadamente por uma carreira no Ministério Público, assim desdenhando da suposta superioridade social e profissional da magistratura judicial. Os procuradores, por sua vez, não gostam de ser mandados nem de estar sujeitos aos caprichos e à agenda dos juízes com quem trabalham, sendo que muitos se arrependem mais tarde de não terem seguido a judicatura, pois assim poderiam, eles próprios, mandar mais (e ganhar mais). Pinto Monteiro é alguém a quem foi dada a chave de uma casa de cujos ocupantes não gosta - ou dos quais, no mínimo, desconfia - e que naturalmente hostiliza. Ele está ali com um fim: o de pôr ordem na dita casa através de uma vassourada valente nos condes e nas marquesas, e através do controlo que pretende exercer sobre os procuradores e as polícias de investigação em geral. Fala, publicamente, não como um Procurador-Geral, mas como um juiz, ou seja, fala com a arrogância e o desprendimento próprios de quem sempre gozou de irresponsabilidade no exercício da sua função de mandar (no fundo, uma atitude ou uma forma de estar equivalente àquela a que, na gíria e em tom de brincadeira, chamamos juizite aguda). De uma coisa, no entanto, desconfio que não poderemos vir a acusá-lo: de corporativismo. Eis um PGR que não parece especialmente interessado em defender os interesses da classe - quanto mais não seja porque esta classe não é a sua.”
E assim, duma só vez, ficamos todos a perceber o que está em causa e por que razão a polémica chegou ontem ao Parlamento. Foi num blog que li. Está lido.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Eles hadem, diz Berardo

Onde anda Joe Berardo, já se sabe o que se encontra: polémica em dose generosa. Ontem à noite cumpriu-se a premissa em mais uma edição do Prós e Contras, desta vez sobre a proposta de fusão do BPI com o Millenium BCP.
De um lado, Fernando Ulrich, do outro o comendador Berardo, e pode dizer-se que por aqui ficou o programa. A blogoesfera concorda, a ver pelos posts que encontro sobre o tema:
JCS, no blog Lobi, mete-se com a forma de falar de Berardo:
“Se você quer pôr toda a gente a falar espanhol na ibéria... - disse Joe Berardo a Fernando Ulrich, aludindo aos accionistas espanhóis presentes no capital do BPI. Até estamos com Berardo neste receio. Mas o que sugere o Joe? Que se fale aquela sua mescla de português, inglês, baba e degustação de amendoins?”
Igualmente forte, o post de Saulus Lúpus no blog Bujardas Negras:
“O tempo verbal hadem, do verbo hader, foi criado pelo Sir Joe Berardo, (...) durante a sua participação no debate do "Prós e Contras" (...). Pequenos detalhes da nossa história que o Bujardas tem o prazer de vos transmitir. Não se esqueçam: "Hadem". Muito dinheiro - pouco cérebro, é a receita ideal para fazer progredir este nosso linguajar, que em tempos foi chamado de "Língua de Camões".
Num olhar mais sério e interessado, encontro Helder no blog Insurgente:
“Não tenho um mínimo de respeito por qualquer empresário que se sirva do estado. Há dezasseis anos que sou cliente do BCP, há dez que sou accionista (...), mas se a opinião do Joe Berardo valer alguma coisa, salto fora. Não quero fazer parte de nenhum clube que tenha como sócio tal gente”.
Já Gabriel, no blog Blasfémias, pede explicações:
“O BPI e o BCP são entidades privadas. José Berardo é um accionista do BCP. O que é que estão a fazer na televisão? O que é que há ali para «peixeirar» que não tenha de ser resolvido no interior de uma administração ou de uma assembleia geral? Que interesse tem aquilo? Quem quer ver aqueles momentos de conversa de tão mau gosto? Às vezes ainda se entende que quem tem de viver da praça pública tenha de fazer e suportar certas coisas em público. Agora, Fernando Ulrich, está ali a fazer o quê?”
João Villalobos, no blog Corta Fitas, tinha adivinhado tudo umas horas antes:
“Se os senhores se portarem bem, daqui a meia-hora não há ninguém acordado ou sintonizado na RTP1. Se os senhores se portarem mal, há peixeirada de envergonhar as veteranas da Ribeira e audiências superiores às do «Casamento de Sonho». Ganhar, só ganham juízo. E mesmo assim a ver vamos.”Quando o programa chegou ao fim, parece-me que ficou a meio caminho: entre o sono e a peixeirada, ou melhor, entre o nada e o coisa nenhuma.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Crónicas em papel e em blog

A pergunta é legítima: será que ao disponibilizarem, gratuitamente, nos seus blogues, os artigos que publicam nos jornais, os cronistas não estão a esvaziar a imprensa tradicional do seu valor de mercado?
Na verdade, de Pacheco Pereira a João Miranda, passando por João Pereira Coutinho ou António Sousa Homem, cada vez mais há colunistas de imprensa que, poucas horas depois de publicarem em jornais, colocam nos blogues os textos publicados.
Ora, se eu compro, por exemplo, o Público, ao sábado, apenas para ler Pacheco Pereira, posso deixar de gastar 1,25 euros e basta-me para isso esperar umas horas até que a sua crónica apareça no blogue “Abrupto”, onde a poderei ler e guardar em papel sem gastar um cêntimo...
Esta é, naturalmente, uma reflexão que jornais e autores podem vir a fazer.
Outra, bem diferente, é aquela que vira do avesso a lógica da leitura. Exemplo: como todos os sábados, comprei o Expresso e li, ao longo do fim-de-semana, o que mais me chamou a atenção ou me interessou. Provavelmente hoje, segunda-feira, o jornal iniciaria o seu processo de falência e morte natural. Mas eis que, por causa de um blogue, 2 artigos que provavelmente me passariam ao lado, são repentinamente alvo da minha atenção.
João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos, acordou-me para os dois textos:
“O suplemento "cultural" do Expresso, escreveu ele, vale apenas porque intermitentemente insere bons artigos, coisas para pensar. O resto é sempre pequenas prosas por pequenos tartufos. Esta semana valem os textos de Nuno Crato sobre o ensino da matemática no "básico" (não adianta andar a distribuir computadores quando o sistema prepara mentecaptos através de facilitismos estéreis espelhados em regulamentos que querem dizer nada) e de Joaquim Manuel Magalhães sobre o regime, o "socratismo" da felicidade que espreita à esquina. (...) Ficam "algumas palavras" do Joaquim, de uma crónica terrivelmente intitulada "Derrocada": «(...) Destroem a classe média, precisamente aquela de onde, quando não sujeita às extremas pressões das insuficiências, quase sempre vi irromper as aberturas civilizacionais mais consistentes. Esta, não tendo para onde se voltar (já experimentou todos os partidos desta democracia), aceitará um dia politicamente o quê? Se é o espaço fundamental das conquistas democráticas, rapidamente também se torna o espaço da derrocada das próprias democracias. O nosso sistema político não estará já perigosamente em causa?»
Li o post e fui a correr recuperar o suplemento Actual do Expresso para ler os dois artigos, que são realmente relevantes e marcam os dias que passam. Poucas horas depois, no mesmo blog, eram disponibilizados na íntegra os textos originais.
O que resulta daqui?
Duas ideias: primeira, a de que a blogoesfera, quando tem credibilidade e inspira confiança, nos pode devolver aos jornais e forçar a olhar de novo para eles; segunda, a de que é essencial reflectir com precisão e rigor sobre esta relação entre jornais e blogues. Nalguns casos, por causa de um blog não lemos um jornal. Noutros, exactamente o contrário. Veremos o que o futuro nos reserva.

sábado, 27 de outubro de 2007

Domingo no rádio

No próximo domingo, entre as 11 e as 12:00, Na Antena Um, converso com Pedro Lauret, capitão de mar e guerra, membro da Associação 25 de Abril, editor do blog "Avenida da Liberdade" (http://www.avenidadaliberdade.org).

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Blog da Semana: "Da Literatura"

Chama-se Da Literatura e tudo indicaria que se trata de um blog dedicado aos livros, às letras. Redondo engano – e talvez por isso, uma escolha da semana.
“Da Literatura”, então. Poeta, ficcionista, ensaísta e crítico literário, actualmente ligado ao jornal Público, Eduardo Pitta é o autor deste blog, ainda que por lá apareça também o nome de João Paulo Sousa.
Bom, quem o alimenta é mesmo o poeta, assumo portanto que o blog é dele. Por que o integro na escolha do meu blog da semana? Bom, porque é um blog alargado na perspectiva, no horizonte, e que revela muito do seu autor. Quem goste de ler a poesia de Eduardo Pitta, ou quem acompanhe o seu percurso no jornalismo, tem aqui uma espécie de visita guiada à casa do autor. Sendo certo que é um homem com múltiplos interesses. Apesar do nome “Da Literatura”, o que lé se encontra são bons textos para ler. Seja sobre politica – ainda esta semana chamou "watergatezito" ao desabafo de Pinto Monteiro sobre as escutas telefónicas – mas também sobre o mundo internacional, a arte, o cinema, os livros, a vida.
Vale a pena, por exemplo, recuperar e ler a série de textos sobre Roma vista por Eduardo Pitta: uma cidade para lá da capital turística, uma cidade com pessoas e bairros e graffitis nas paredes e gente simpática e bonita e afável:
“Para o melhor e para o pior, a capital italiana é uma cidade do século XIX. Seria longo explicar porquê. Quem conhece, sabe do que falo. Quem não conhece, devia ir conhecer”. E entretanto ler a reportagem em partes do poeta e escritor. Fiquei com vontade de voltar a Roma…
No blog de Eduardo Pitta há espaço para o desabafo particular, o ensaio aprofundado, a reflexão ou o apontamento critico, como este que me levou a querer confirmar no cinema se faz sentido ou não:
“Jodie Foster, escreve Pitta, deu no goto à bem-pensânsia. Há muitos anos que cada novo filme seu chega envolto em tese. O mais recente, The Brave One, que entre nós se chama A Estranha em Mim, nem como telefilme da série B se safa. (…) Com boas intenções nunca se fez arte. É mesmo como cinema que a história de Erica Bain é um flop.”
“Da Literatura” se chama então este meu blog da semana – um diário, um jornal, tudo isso e um pouco mais no universo de gostos e interesses de um poeta e escritor. Vale a pena conhecer.

Preto e branco

A polémica começou quando o Prémio Nobel James Watson disse acreditar que os negros são menos inteligentes do que os brancos. O “Sunday Times” publicou as declarações e daí para a frente foi o disparate dos disparates, com toda a espécie de comentários. O senhor já pediu desculpa pelo que disse, mas a festa continua… Luis M. Jorge no blogue Vida Breve analisou os diversos tipos de reacção:
“A boutade do cientista James Watson, se teve algum mérito, foi o de nos revelar mais uma vez os fundamentos simbólicos da segmentação política: a desigualdade horroriza a esquerda, mesmo que provenha (principalmente quando provém) da natureza; já o outro, o estranho, o fraco, o estrangeiro, o muçulmano, o homossexual, o negro, fazem eriçar os instintos tribais de protecção que formam a perturbadora identidade da direita. De um lado a inveja, do outro o medo. Caminhamos em territórios familiares”.
Entretanto o cientista, além das humilhações publicas, viu canceladas conferências e de alguma forma limitadas as suas palavras.
Rui Ângelo Araújo, no blog Canhões de Navarone, vai atrás das sequelas do caso. Concorda que não se deve silenciar James Watson. Só que, escreve, “ninguém silenciou o homem. Cancelaram-se conferências, o que é um bocadinho diferente. (…) Não me ocorre proibir estudos sobre a inteligência dos pretos, das mulheres, dos gordos ou até dos níveos plumitivos portugueses. Mas, por favor, deixem-me pelo menos rir à vontade de quem propõe que a inteligência é negativamente afectada pela cor da pele, a vagina ou uns quilos a mais”
Pedro Sales, no blog Zero de Conduta recoloca a questão onde ela nasceu:
“James Watson, continuando o seu historial de proclamações polémicas na véspera do lançamento dos seus livros, tentou vender a banha da cobra. Escolheu uma polémica garantida. Não existe nenhum "tabu", como insinua José Manuel Fernandes (no jornal Publico), na conclusão científica de James Watson. O problema é que ela não é científica, mas vende a ciência para se legitimar e defender o mais profundo dos estigmas racistas”.
Sobre ciência, estudos e este tema, vale a pena dar um salto ao blog Cinco Dias, onde está um bem estruturado texto de Vasco Barreto, e outro de Sérgio Lavos, no blog Autoretrato – ambos demasiado complexos para em rádio os conseguir resumir.
Já num sentido oposto aparece o filósofo Desidério Murcho no blog Rerum Natura:“Watson, escreve, pode estar a ser vítima do “politicamente correcto”. Hoje é proibido pensar que as pessoas podem ser diferentes umas das outras em capacidades cognitivas, sendo tais diferenças correlativas às suas origens genéticas. Tal como é proibido dizer que o aquecimento global não é provocado pelos seres humanos. A proibição em si é grave.”
Vai em grande a polémica...
Não tendo nada a ver com o tema, mas sendo uma nota de humor relacionada com a raça, cá vai uma das ultimas de Rodrigo Moita de Deus no blogue 31 da Armada:
“Leio no Diário de Notícias que um deputado Angolano foi eleito para o parlamento Suiço. Suiça, repito. Em Portugal, país dos pantones, a nossa assembleia é de uma assustadora lividez.”
É sim senhor. E com esta me vou, para voltar amanhã.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

O povo retirado da equação?

“Teremos referendo ou o povo vai ser retirado da equação?” – a pergunta, assim colocada por Miguel Portas no blog Sem Muros, dá o mote ao amplo debate que vai na blogoesfera sobre a ratificação do Tratado de Lisboa.
Como se não bastasse a delicadeza do tema em si, chegou agora o distinto Vital Moreira no blog Causa Nossa e escreveu:
"Os que defendem o referendo sobre o Tratado de Lisboa já experimentaram
lê-lo? E acham que algum cidadão comum consegue passar da segunda página? Não será tempo de deixar de brincar aos referendos?"
E pronto: caiu-lhe meio mundo em cima. Rui Cerdeira Branco no blog Adufe chamou-lhe paternalista e comentou:
“Serve essa complexidade agora de pretexto para desvalorizar e ridicularizar o exercício político por via referendária. O caminho que cegamente se trilha levará invariavelmente a um "Fiquem lá com a Europa que nós vamos por outro lado."
E remata: “Haja referendo porque SIM é cada vez mais uma excelente razão
. Tão boa como porque NÃO”.
Paulo Pinto Mascarenhas no blog da revista Atlântico concorda:
“Sem euroexcitamentos ou eurodepressões, acho que o referendo, agora que o tratado está aprovado, seria uma belíssima oportunidade para se discutir que lugar quer ocupar Portugal. Na Europa e no Mundo. Para votar “Sim”, porque não vejo a soberania em risco.”
Procurei alguém que dissesse não ao referendo e encontrei: Sebastião, no blog o Conserto das Nações, dá 3 razões para não referendar o Tratado:
Primeira, “a proliferação de referendos não me parece muito recomendável numa democracia representativa”. Segunda, “as campanhas referendárias tendem a assumir a forma de debates partidários e não de discussões sobre o que se pretende ratificar”. Terceira, “a política externa é tradicionalmente uma área opaca, que a generalidade da população conhece mal”.
Lá está a velha teoria: deixemos o povo em paz, ele não sabe do que fala...
Sofia Loureiro dos Santos tenta, no blog “Defender o quadrado”, explicar a lógica do Governo:
“Sócrates prometeu o referendo
em campanha eleitoral; nos últimos tempos tem tentado recuar, com receio que o resultado do referendo seja desfavorável, estando aliás em acerto com o Presidente da República”. Mas depois atira-se às contradições do habitual Abrupto:
“Para Pacheco Pereira, se Sócrates não quiser referendar está mal, pois desrespeita o povo que o elegeu, diminui a democracia e afasta os cidadãos dos governantes; se Sócrates referendar também está mal, porque o faz apenas e só porque daí tirará dividendos políticos internos, ganhando pela dúbia posição do PSD. Pacheco Pereira entrou em delírio, em plena esquizofrenia (ou desonestidade?) intelectual”.
E é assim que estamos, debatendo o referendo antes mesmo de debater o tratado.